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Correlação com o bitcoin: é a sua moeda ou o mesmo BTC com outro ticker?

Um número entre −1 e +1 responde a uma pergunta incômoda: você está operando aquele instrumento ou o mesmo bitcoin com outro nome? Mas ele tem um limite de sentido, e conhecê-lo importa mais que o número.

A que esse número responde

Você escolheu uma moeda porque ela tem bom gráfico, uma notícia e volume crescente. Se a correlação dela com o bitcoin é 0.9, tudo isso não importa: você abriu uma posição em bitcoin, só que com liquidez pior e spread mais largo. O número responde exatamente a isso: o instrumento tem vida própria? A mais nada ele responde, e a segunda metade da lição é sobre o que não se deve esperar dele.

Calcula-se por retornos, não por preços

Pegamos as últimas 25 horas, juntamos os minutos em velas de uma hora e calculamos RETORNOS HORÁRIOS: não os preços em si, e sim as variações deles. Saem até 24 pontos; se forem menos de 8, o número não é mostrado de jeito nenhum. A diferença entre preços e retornos é de fundo, não técnica: dois gráficos quaisquer que subam dão uma correlação de preços alta simplesmente porque os dois sobem. Assim ficariam «relacionados» o ouro e um memecoin, que não têm nada a ver um com o outro. Os retornos mostram justamente a simultaneidade do movimento.

Um: as 24 horas mudaram de forma concordante — BTC para cima e a moeda para cima, BTC para baixo e a moeda para baixo. Zero: não há concordância. Menos um: espelho. O próprio bitcoin traz um traço na tabela e não um um: a correlação consigo mesmo é uma tautologia, não um fato sobre o mercado.

Uma medição que discorda da afirmação corrente

«Os altcoins têm correlação com o bitcoin de 0.6–0.9» é uma frase repetida em toda parte, e nós mesmos a repetimos no curso de risco até calcularmos com os nossos dados. Medição sobre 677 moedas num instante: a mediana do mercado é 0.07, e 57.6% das moedas cabem dentro de ±0.2. A afirmação corrente se mostrou verdadeira apenas para as maiores: DOGE 0.79, XRP 0.67, SOL 0.66, ETH 0.64.

O vínculo com o bitcoin é propriedade das moedas líquidas

Giro diárioMoedasMediana de correlaçãoAcima de 0.5
acima de $100 mi36+0.2328%
$10–100 mi126+0.159%
$1–10 mi327+0.054%
abaixo de $1 mi188+0.066%

A imagem é nítida e explicável. As moedas grandes são seguradas por dinheiro institucional e algorítmico, que move o mercado inteiro de uma vez. Uma moeda pequena vive do pump dela, do listing dela e do desenvolvedor dela — o bitcoin não manda nela. A conclusão prática é a contrária da habitual: quanto menor a moeda, menos sentido faz explicar o movimento dela pelo bitcoin.

O limite do sentido: onde acaba o número e começa o ruído

Esta é a parte principal da lição. Uma correlação sobre 24 pontos é uma amostra curta e tem dispersão própria. Verificação com dados inventados: se você pegar duas séries de números PURAMENTE ALEATÓRIOS de 24 valores, a correlação medida entre elas cai em 90% dos casos na faixa de −0.34 a +0.34. Não porque haja vínculo, e sim porque há poucos pontos. Com 168 pontos (uma semana de velas horárias) essa mesma dispersão se estreita para ±0.13.

Daí a regra prática para ler a nossa coluna: distinguir 0.05 de 0.15 não faz sentido, os dois valores estão dentro do ruído. Um valor como 0.65 se diferencia de zero com segurança. E a faixa de aproximadamente −0.35 a +0.35 numa janela diária se lê como «não se vê vínculo», e não como «não há vínculo». São afirmações diferentes, e a segunda não se deduz dos nossos dados.

Erro típico

Ler uma correlação baixa como independência comprovada

Numa moeda pequena um valor baixo costuma significar não autonomia e sim falta de dados: ela é negociada pouco, os retornos horários são quase aleatórios e a correlação faz ruído em torno de zero. Distinguir uma coisa da outra numa janela diária é impossível em princípio. Se você precisa da independência como argumento — para uma carteira, para uma proteção — é preciso conferi-la numa janela longa e em instrumentos líquidos, não numa moeda com giro de $300 mil.

O que a correlação não diz: nem força nem causa

A correlação mede a concordância de DIREÇÃO, não o tamanho da caminhada. Uma moeda com correlação 0.9 pode andar o triplo do bitcoin: a direção é a mesma, a amplitude é dela, e o risco por posição não se deduz disso — ele se calcula pela volatilidade do próprio instrumento. Segundo silêncio: a correlação não tem direção de causa. Ela não distingue «a moeda segue o bitcoin» de «ambos seguem o humor geral do mercado», e nas moedas pequenas o verdadeiro costuma ser o segundo.

A única diversificação de verdade na nossa tabela

Medição sobre os demais tipos de instrumento nesse mesmo instante: em 507 ações a mediana da correlação com o bitcoin é +0.02, em 17 commodities −0.18, em 14 pares de moedas −0.03. Isso sim é independência de verdade, e não porque os números sejam pequenos, e sim porque atrás deles há mecânica: o ouro e o EURUSD se movem por juros, balanços e geopolítica, não pelo humor do mercado cripto. Cinco altcoins são uma aposta em cinco linhas; cripto, ouro, petróleo e um par de moedas são quatro causas diferentes.

Erro típico

Tomar a correlação por uma propriedade da moeda

Não é propriedade e sim o estado de hoje, e ela muda justamente quando o preço da pergunta é mais alto. Num mercado calmo a moeda anda honestamente pelo caminho dela; no dia do tombo se vende tudo sem distinguir, e as correlações tendem de uma vez a um. A carteira que parecia distribuída se revela uma posição só exatamente no dia em que isso custa caro. Por isso o número se olha antes de CADA abertura e não se memoriza uma vez.

A coluna de correlação com o bitcoin está em cada linha do screener e é ordenável. Ordene para cima e para baixo e compare as duas pontas da lista: em cima vão estar as moedas grandes, embaixo as pequenas e o que não é cripto. É a mesma medição da lição, só que com os números de hoje, e dá para repetir em qualquer dia.

Sobre a correlação com o bitcoin
Exercício

Sua própria medição em cinco minutos

Anote a correlação com o bitcoin de dez moedas que você realmente opera, e ao lado o giro diário delas. Depois responda a si mesmo duas perguntas. Primeira: quantas das dez estão dentro de ±0.35, ou seja, sobre as quais a janela diária não permite dizer nada? Segunda: se amanhã o bitcoin cair cinco por cento, quantas posições dessas dez você segura de verdade, dez ou uma? Repita a medição dentro de uma semana: na maioria os números vão se mexer bastante, e isso também faz parte da resposta.

Teste-se

Uma moeda tem correlação com o bitcoin de 0.12. Isso significa que ela se move de forma independente?

Não, daí só se conclui que não se vê vínculo na janela diária. Com 24 pontos, mesmo séries totalmente independentes dão valores dentro de ±0.34, então 0.12 é indistinguível tanto de zero quanto de 0.2. Se a independência importa para a decisão, são precisas uma janela longa e um instrumento líquido. E vale olhar à parte o giro: numa moeda com giro de centenas de milhares de dólares, uma correlação baixa fala mais de negócios raros do que de vida própria.

Teste-se

Por que a correlação é calculada pelas variações de preço e não pelos preços em si?

Porque por preços ficaria «relacionado» tudo que sobe ou cai ao mesmo tempo, sem causa comum nenhuma. Dois gráficos que subiram por meio ano dão uma correlação de preços perto de um mesmo sendo a ação de uma companhia aérea e um memecoin. As variações removem a tendência comum e deixam a pergunta pela qual tudo é calculado: esses dois instrumentos se movem JUNTOS em cada hora concreta? Essa mesma consideração explica, aliás, por que a janela é curta: o vínculo é instável, e uma correlação anual responderia sobre o ano passado e não sobre o dia de hoje.