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A análise de ondas e a desgraça de nascença dela

A ideia é simples e bonita: o movimento vai em cinco ondas e o repique em três. A desgraça é que a quase qualquer gráfico servem várias contagens ao mesmo tempo.

Nos anos 1930 Ralph Elliott notou que o mercado não se move de forma caótica e sim em conjuntos repetidos: cinco ondas no sentido do movimento principal e três contra. A observação em si é razoável — ela descreve o que se vê mesmo sem ela: o movimento vai aos trancos com repiques, e os trancos a favor da tendência são mais longos que os repiques. Os problemas não começam com a ideia e sim com aquilo em que ela se transformou.

A desgraça principal: a contagem alternativa

Quase toda contagem tem uma reserva. A quinta onda não se confirmou? Então era a terceira e estamos na quarta. Isso também não se confirmou? Então toda a construção era a onda primeira de um grau maior. Uma afirmação que sempre tem uma explicação de reserva não pode ser refutada, e portanto também não pode ser confirmada. É justamente por isso que a análise de ondas parece infalível no relato alheio e se transfere tão mal para um gráfico ao vivo.

O que é regra e o que é recomendação

AfirmaçãoO que éDá preço de invalidação?
a segunda onda não passa do início da primeiraregrasim
a terceira não é a mais curta de 1, 3, 5regrasim
a quarta não entra no território da primeiraregrasim
a terceira costuma ser a mais longarecomendaçãonão
a correção costuma chegar a 0.618recomendaçãonão
a quinta muitas vezes é igual à primeirarecomendaçãonão

Por que essa separação decide tudo

As regras são exatamente três, e cada uma dá um PREÇO ao qual a contagem é declarada errada. É a única coisa que transforma as ondas de um relato numa ferramenta: aparece um número que dá para pôr como stop e com o qual dá para contar quantas vezes você errou. As recomendações não dão esse número. Elas servem para expectativas, não para decisões, e confundi-las com regras significa ficar sem preço de invalidação nenhum.

Erro típico

Recontar depois de o preço ir para outro lado

Quase todo mundo faz isso, e quase sempre sem perceber. A contagem parou de fechar, você mexe nos números e agora ela fecha de novo. Formalmente não há erro: as regras não foram quebradas. Em essência você acabou de apagar a sua própria previsão errada e substituí-la por uma certa depois do fato. O remédio é um só e é desagradável: anotar a contagem e o preço de invalidação ANTES, numa lista à parte, e contar quantas vezes foi preciso mudar. Esse número é a única medida honesta da sua análise de ondas.

Erro típico

Procurar ondas onde não há movimento

Num intervalo dá para marcar qualquer coisa: o preço vai para cima e para baixo, e cinco oscilações quaisquer podem ser chamadas de impulso. A contagem de ondas faz sentido só onde há movimento direcional com estrutura clara — ou seja, em cerca de um terço dos casos. No resto do tempo a resposta honesta é «não há contagem», e ela é bem mais útil que uma forçada.

O que nas ondas ainda assim é valioso

Uma coisa que não existe em outros métodos: elas obrigam a pensar em PROPORÇÃO e em onde você está dentro do movimento. A pergunta «estamos no começo da caminhada ou no fim?» a maioria das abordagens nem faz — elas falam só do momento atual. As ondas a fazem diretamente, e mesmo uma resposta aproximada muda o tamanho da posição e a expectativa. É por essa pergunta que vale conhecer o tema — mas com a compreensão clara de que a resposta será aproximada.

Conferir a sua contagem dá exatamente de um jeito: no bar replay, marcando conforme as velas aparecem e sem ver o futuro. O gráfico roda vela a vela e nada é carregado para frente — nem para os indicadores. Se depois disso a sua contagem coincidir com o que você desenharia num histórico pronto, você tem um método que funciona. Normalmente não coincide, e é melhor descobrir isso sem dinheiro.

Gráfico e bar replay
Exercício

Dez contagens com preço de invalidação anotado

Pegue dez instrumentos e marque em cada um o movimento atual. De cada um anote DUAS coisas: o número da onda em que você está e o preço no qual a sua contagem se torna errada por uma das três regras. Uma semana depois volte e conte: quantas vezes o preço de invalidação foi atingido e quantas vezes você teve vontade de «afinar» a contagem em vez de reconhecê-la errada. O segundo número costuma ser maior que o primeiro — e é ele o objeto do trabalho.

Teste-se

Por que a possibilidade de uma contagem alternativa é um defeito e não flexibilidade?

Porque uma previsão que se cumpre com qualquer desfecho não informa nada. Se com o preço subindo você está certo («vai a terceira») e com o preço caindo também («então era a quarta»), a sua contagem não distingue estados futuros do mundo — e é exatamente nisso que consiste uma previsão. A flexibilidade é útil para explicar o passado e prejudicial para prever o futuro, e a análise de ondas confunde essas duas tarefas mais que qualquer outro método.

Teste-se

Três regras e uma dezena de recomendações — por que não dá para tratá-las igual?

Porque só as regras dão preço de invalidação. A recomendação «a terceira onda costuma ser a mais longa» não diz onde pôr o stop: a palavra «costuma» não se traduz em número. A regra «a terceira não é a mais curta» se traduz: assim que a terceira fica mais curta que a primeira e a quinta, a contagem está morta, e isso é um preço concreto. Misturando-as, a pessoa fica com a segurança das recomendações sem a proteção das regras — a pior combinação possível.