6 / 7 · 8 min
Figuras: umas têm mecanismo, outras só nome
Atrás de triângulos e bandeiras há algo mensurável: a compressão da volatilidade antes da expansão. Atrás da maioria das outras há só tradição e a capacidade do olho de ver rostos nas nuvens.
Uma figura é um nome dado a uma forma reconhecível de calmaria. A utilidade dela depende inteiramente de o nome descrever um mecanismo real ou apenas a aparência. Separa-se com uma pergunta: o que precisa estar acontecendo com os participantes do mercado para sair essa imagem? Se há resposta e ela é testável, a figura serve. Se a resposta soa como «historicamente ficou assim», você tem diante de si um nome sem conteúdo.
O mecanismo que de fato existe
A volatilidade vive em ondas: depois de velas largas vêm estreitas, e depois das estreitas de novo largas. Não é mística nem propriedade dos gráficos: é assim que se comporta um mercado em que os participantes ora divergem, ora chegam a um acordo. Quando o acordo é alcançado, a amplitude das velas cai; quando aparece informação nova, ela explode. Todas as figuras que funcionam — triângulo, bandeira, retângulo — são aparências diferentes de uma mesma compressão. O que se pode medir é a compressão, não a forma.
A relação entre a amplitude recente e a habitual. Um valor perto de um: o mercado se comporta como sempre. Abaixo de 0.6: as velas ficaram bem mais estreitas, há compressão. Exemplo: uma moeda anda entre 1 180 e 1 240, o ATR de cinco velas caiu para 18 contra os 41 habituais — relação 0.44. E agora o importante: a compressão diz que a expansão se aproxima, e NÃO diz para que lado. Quem afirmar o contrário está te vendendo uma direção que não está nos dados.
O que cada figura descreve
| Figura | O que acontece de verdade | O que é preciso para ela significar algo |
|---|---|---|
| bandeira, flâmula | pausa na tendência: os primeiros realizam, não há vendedores novos | volume caindo dentro da pausa |
| triângulo | compressão: os dois lados convergem para um preço | estreitamento real pelo ATR, não pelas suas linhas |
| retângulo | intervalo: as bordas são seguradas por ordens | bordas visíveis sem construções suas |
| ombro-cabeça-ombro | uma máxima nova frustrada mais quebra de estrutura | nada além do que já está na estrutura |
Ombro-cabeça-ombro: análise honesta
A figura de reversão mais famosa, vista de perto, acaba sendo uma recontagem do que foi dito na primeira lição. O ombro esquerdo e a cabeça são máximas crescentes. O ombro direito é uma máxima que NÃO superou a anterior. O rompimento do pescoço é a saída abaixo da última mínima relevante. Ou seja, temos diante de nós uma quebra de estrutura comum, nomeada com três palavras em vez de duas. O nome não acrescenta um único fato novo. Mas há uma ressalva honesta: a figura é conhecida por todos, então na linha do pescoço se acumulam de fato stops e ordens limitadas alheias. Ela funciona não porque prevê, e sim porque olham para ela.
O alvo pela altura da figura
A regra de «transferir a altura da figura a partir do ponto de rompimento» é repetida tanto que parece uma lei. Ela não tem mecanismo: a altura de uma consolidação é a amplitude da discussão dos últimos dias, e não tem relação nenhuma com até onde o preço será levado depois. O motivo de a regra sobreviver é mais simples: em média a amplitude da figura é proporcional à volatilidade do instrumento, e depois do rompimento o preço percorre em média uma distância proporcional a essa mesma volatilidade. Há coincidência, não causalidade. Calcule o alvo diretamente pelo ATR e terá o mesmo número sem mitologia extra.
Ver uma figura onde ela não está
O olho humano acha rostos nas nuvens, e num gráfico funciona igual. Pegue cinquenta velas quaisquer e tente traçar um triângulo: vai sair, e ainda de várias formas ao mesmo tempo. Esse é o verdadeiro problema das figuras: não que não funcionem, e sim que dá para encontrá-las em toda parte. A defesa é uma só e é numérica: antes de nomear uma forma, meça a compressão. Se o ATR não cai, não há triângulo, por mais convincentes que as linhas convirjam.
O que fazer com o rompimento de uma compressão
A direção não dá para adivinhar, mas dá para se preparar para as duas. Abordagem prática: marque as duas bordas da compressão e decida de antemão o que faz se sair para cima e o que faz se sair para baixo. O stop vai atrás da borda oposta, e não atrás da vela mais próxima: dentro de uma compressão o preço se joga para os lados, e um stop apertado dispara no ruído. E lembre do desdobramento mais frequente: a primeira saída costuma ser falsa, e o movimento de verdade começa depois dela para o outro lado. Por isso entrar depois da confirmação sai mais caro, mas sobrevive a essa armadilha.
A compressão se vê em números, não a olho: na tabela há uma coluna NATR, a amplitude habitual do instrumento em relação ao preço dele. Um NATR caindo com caminhada diária estreita é justamente aquela consolidação que a figura apenas desenha. No gráfico a consolidação é cômoda de marcar com um retângulo: ele fica no lugar enquanto você troca de escala e mostra na hora se as bordas realmente se estreitaram.
Gráfico e marcaçãoAche dez compressões com números, não com os olhos
Ordene a tabela por NATR crescente e pegue dez moedas com a menor volatilidade entre as que têm giro decente. Abra cada uma e veja o que há no gráfico. Depois marque as bordas da calmaria com um retângulo e volte alguns dias mais tarde. Conte dois números: em quantas a compressão terminou com uma saída e quantas vezes a primeira saída foi falsa. O segundo número costuma surpreender mais que o primeiro — e é justamente ele que decide se vale a pena você operar rompimentos.
As linhas do triângulo convergem perfeitamente, mas o ATR das últimas cinco velas não mudou. O que isso significa?
Que o triângulo foi desenhado por você, não pelo mercado. Dá para traçar linhas convergentes em quase qualquer trecho do gráfico: você escolhe os pontos, e eles sempre aparecem. Compressão de verdade é quando a amplitude das velas realmente diminuiu, e isso se vê num número, não num traçado. Se o ATR está parado, não há mecanismo, e esperar expansão dessa figura não faz sentido.
Se ombro-cabeça-ombro é só uma quebra de estrutura, para que conhecer a figura?
Por uma única razão: todos os outros a conhecem. A linha do pescoço entra nos planos de negociação alheios, e nela se acumulam de fato stops e ordens limitadas — ou seja, ela vira um nível no mesmo sentido em que é a máxima da semana passada. Vale conhecer a figura não para prever, e sim para entender onde estará o dinheiro alheio. E isso, aliás, é uma regra geral: qualquer marcação amplamente conhecida vale sobretudo porque muita gente a vê.