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Uma ideia testável: aquela que pode estar errada

A maioria das regras de negociação é formulada de um jeito que serve para qualquer desfecho. Uma regra assim não dá para testar — e portanto não dá para se apoiar nela.

O sinal que distingue tudo

Pegue a sua ideia e pergunte: que resultado mostraria que ela está ERRADA? Se não há resposta, não há o que testar. «O preço sempre volta aos gaps» é irrefutável: se não voltou hoje, volta daqui a um mês, e se não voltou em um mês, é que não era aquele gap. Essa formulação é compatível com qualquer futuro, então ela não diz nada sobre o futuro. A versão testável soa diferente: «em 70% dos casos o preço toca o gap dentro de cinco dias». Aqui está claro o que contar e está claro com que resultado a afirmação terá de ser jogada fora.

Uma mesma observação em duas formas

Não testávelTestável
Um nível é mais forte quanto mais toques temDepois do terceiro toque o nível rompe mais vezes que depois do primeiro
O volume confirma o movimentoUm rompimento com volume acima da mediana se sustenta mais vezes que sem ele
A tendência deve ser operada a favorEntrar na direção da vela diária dá esperança maior que contra
O mercado junta liquidez antes de se moverDepois de varrer a mínima do dia o preço sobe em 60% dos casos em 4 horas

A diferença não está no rigor da linguagem e sim na presença de um número e de um prazo. Uma afirmação testável tem três partes: o que acontece, em que fração dos casos e em quanto tempo. Sem qualquer uma das três você fica com uma frase à qual não dá para aplicar dados — e portanto a discussão sobre ela é infinita e é resolvida por autoridade, não por medição.

Quatro partes de uma formulação que funciona

A primeira é a CONDIÇÃO DE ENTRADA, descrita de modo que duas pessoas a marquem igual no gráfico. «Nível forte» não serve; «máxima das últimas vinte velas» serve. A segunda é a AÇÃO: o que exatamente fazemos, a que preço, com que ordem. A terceira é o DESFECHO: onde saímos no lucro e onde reconhecemos o erro, os dois preços conhecidos antes de entrar. A quarta é o PRAZO: em quanto tempo a ideia deve se cumprir, senão saímos por tempo. Só com as quatro partes a ideia vira contável.

Exemplo com números

Como é a transformação

Antes: «compro de um suporte forte, quando dá para ver que o comprador defende o nível». Depois: «pego uma moeda entre as cinquenta primeiras por giro; condição: o preço tocou a mínima das últimas vinte velas de uma hora e voltou acima dela em duas horas; entrada a mercado no fechamento da vela de uma hora; stop 0.7 ATR abaixo da mínima; alvo 1.5 ATR; se em 12 horas não aconteceu nem uma coisa nem outra, saio por tempo». A primeira frase não dá para testar, a segunda dá — e é nisso que consiste toda a diferença entre uma opinião e uma hipótese.

Erro típico

Deixar na regra a palavra «geralmente»

«Geralmente depois de um movimento desses há um repique» é uma frase que parece prudente e por isso parece honesta. Na prática ela torna a regra não testável: qualquer exceção é explicada com «esse não era o caso». A prudência se expressa com um número e não com uma palavra: não «geralmente» e sim «em 62 casos de 100». Se você não sabe esse número, escreva justamente que não sabe e ponha a obtenção dele como primeiro passo. A palavra «geralmente» numa regra de negociação quase sempre significa «eu não contei».

A ideia e a explicação dela são coisas diferentes

É útil separar a afirmação sobre O QUE acontece da história sobre POR QUE. A primeira se testa com dados, a segunda não, e misturá-las sai caro. «Depois de varrer a mínima o preço sobe» dá para calcular. «Porque o formador de mercado juntou liquidez» não dá: no gráfico se vê só preço e volume, e intenções não estão escritas ali. A explicação ajuda a lembrar a regra e a inventar parecidas, mas é preciso se apoiar na medição. Quando uma ideia para de funcionar, a primeira coisa que se joga fora é a explicação, e não os dados.

Erro típico

Testar a ideia no mesmo trecho em que você a viu

Uma ideia sempre nasce de uma observação: você notou no gráfico uma imagem que se repete. Testá-la nesse mesmo pedaço de histórico não faz sentido — ali ela funciona por definição, foi de lá que você a tirou. É o erro de teste mais difundido e mais invisível: o resultado sai brilhante e no pedaço seguinte se desfaz. A ordem correta é ver num trecho, formular e testar em outro que você não olhou. Como dividir o histórico com honestidade veremos na próxima lição.

No serviço há um bar replay: o gráfico roda vela a vela e o futuro fica escondido de verdade. É o único jeito de marcar sinais com honestidade — sem saber o que veio depois. Abra-o num instrumento que você conhece e marque dez entradas pela sua regra, anotando a decisão ANTES de avançar. Metade das regras não sobrevive a esse procedimento, e é melhor descobrir isso no replay.

Gráfico e bar replay
Exercício

Reescreva a sua regra em quatro partes

Pegue a regra com a qual você opera mais e escreva-a em quatro partes: condição de entrada, ação, dois desfechos, prazo. Depois dê a formulação a alguém que opera e peça que marque os cinco últimos casos no gráfico. Se as marcas dele coincidirem com as suas, a regra está descrita sem ambiguidade. Se não, a divergência mostra qual parte está formulada com palavras em vez de números, e é essa que precisa ser reescrita primeiro.

Teste-se

Em que «o preço respeita o nível» difere de uma afirmação testável?

Na ausência de número e prazo. «Respeita» serve para um repique, para uma parada de uma hora e para uma desaceleração antes do rompimento — ou seja, para qualquer comportamento do preço perto da linha, inclusive os opostos. A versão testável nomeia o evento observável e a fração dele: por exemplo, «depois do primeiro toque o preço se afasta do nível pelo menos 1 ATR em 55% dos casos dentro de seis horas». Aí fica claro o que contar e aparece um resultado com o qual a afirmação terá de ser dada por errada.

Teste-se

É preciso uma explicação de por que a ideia funciona?

É útil mas não obrigatória, e ela não substitui o teste. A explicação ajuda a inventar ideias parecidas e sugere onde a regra pode quebrar: se a causa sumir, o efeito também. Mas confirmar uma ideia com uma explicação não vale: uma história convincente se inventa para qualquer conjunto de dados, inclusive um aleatório. A ordem é: primeiro a medição, depois a explicação, e nunca o contrário. E se a explicação for bonita mas a medição não mostrou nada, o que se joga fora é a explicação.