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Antes de comparar: unidades, moeda, ticker

Metade das «oportunidades de arbitragem» existe só porque alguém comparou o incomparável. Antes de se espantar com uma diferença, traga os dois lados para a mesma forma.

Comparar dois preços parece simples: subtrai um do outro. Na prática entre eles podem estar o multiplicador do contrato, a moeda de liquidação, outro ativo com o mesmo nome e um atraso de entrega. Cada uma dessas coisas gera uma «divergência» que não existe. Abaixo vão quatro armadilhas, todas pegas nos nossos próprios dados, e as quatro nos custaram números corrompidos até serem fechadas.

Multiplicador do contrato

  • Um contrato pode ser por uma moeda, por dez, por cem ou por mil.
  • Moedas pequenas costumam ser negociadas em pacotes: o contrato se chama 1000PEPE e custa exatamente mil vezes mais que uma moeda.
  • Comparar esse contrato com um comum dá um «spread» de mil por cento, e será inteiramente erro seu.
  • A comparação correta passa sempre pelo valor em dólares: quantidade × preço × multiplicador.
Exemplo com números

Moeda de liquidação: como corrompemos nosso próprio histórico

Um caso real do nosso trabalho. A corretora Gate entregava candles de índices de ações em dólares, enquanto o índice vive em pontos: os números diferiam cerca de 1,16 vez, exatamente o câmbio. Nossa proteção contra corrupção compara candles alheios com os nossos e descarta divergências acima do dobro. Uma diferença de 1,16 não passou do limiar, e os candles errados se acomodaram tranquilamente no histórico. A lição: um limiar ajustado para erros grosseiros é cego aos caprichados. Agora os preços de uma fonte assim são multiplicados pelo câmbio antes da comparação, não depois.

Exemplo com números

Um ticker, ativos diferentes

Nosso segundo caso: o ticker ON. Numa praça é um token, em outra é a ação da empresa Ontrak. Por onze dias o histórico da moeda foi preenchido com preços da ação, e pelo nome não dava para notar: os nomes coincidiam. Deu para notar pelo preço: os números não faziam sentido algum para aquela moeda. Daí uma regra prática que vale adotar: um instrumento é identificado por preço e praça, não por ticker. Ticker é convenção, preço é fato.

Marcas de tempo: duas, e as duas são necessárias

Todo evento tem a hora que a corretora carimbou e a hora em que os dados chegaram até você. Elas não coincidem, e a diferença varia por praça. Comparando pela hora de recebimento é fácil concluir que «a Binance se move primeiro» quando na verdade o fluxo dela simplesmente chega mais rápido. Qualquer conclusão sobre quem antecede quem exige marcas da corretora; as suas próprias só servem para conferir se o fluxo em si ficou para trás.

Erro típico

Comparar spot com perpétuo e chamar isso de arbitragem

Spot e contrato perpétuo são instrumentos diferentes com economias diferentes. A diferença deles se chama base e costuma ser explicada pelo funding: se manter uma posição comprada é caro, o futuro negocia acima do spot, e isso é estado normal, não erro de mercado. Dá para ganhar com essa diferença, mas não é arbitragem de «compro aqui, vendo ali»: é uma operação de duas pernas com custo de carregamento e um conjunto próprio de riscos. A última aula do curso é dedicada a ela.

A única grandeza em que dá para somar e comparar posições de praças diferentes. Todo o resto — número de contratos, volume em moedas, nocional — depende das regras de uma corretora específica e não se transfere entre praças.

Nos nossos dados os contratos em pacote são reduzidos a uma moeda, os preços de índices à moeda nativa deles, e instrumentos que dividem ticker são separados por praça. Como funciona, no detalhamento das fontes.

Como conciliamos os dados
Exercício

Encontrar um contrato em pacote

Procure uma moeda com preço em milésimos de centavo e veja como o futuro dela se chama em corretoras diferentes. Você vai encontrar versões com e sem o prefixo 1000. Calcule quantas vezes os «preços» difeririam se comparados direto. É a vacina mais barata contra spreads falsos.

Teste-se

Numa corretora a moeda vale 0,00004 e em outra 0,04. O que você faz?

Não comemorar um spread de mil vezes, e sim checar o multiplicador: quase com certeza o segundo instrumento é um pacote de mil moedas. Se os multiplicadores baterem, a checagem seguinte é se é o mesmo ativo: tickers coincidem com frequência e os projetos por trás diferem. Só se as duas checagens passarem a diferença merece atenção.