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O diário: o único jeito de se pegar em flagrante

A memória reconstrói os motivos depois do fato, e discutir com ela é inútil — só dá para escrever a decisão antes de o desfecho ser conhecido. A boa notícia: os seus hábitos aparecem numa amostra vinte vezes menor que a necessária para testar uma ideia.

Pergunte a alguém por que ele entrou numa operação que deu lucro: ele vai nomear uma causa. Pergunte sobre outra igual, mas perdedora: ele vai nomear outra causa, e as duas vão soar convincentes. Não é questão de mentira: a memória realmente reconstrói o motivo conforme o desfecho conhecido. Isso acontece sem a participação da vontade e não é sentido por dentro.

O que exatamente é reescrito

  • O MOTIVO. «Entrei pelo nível» depois de um lucro e «me apressei» depois de uma perda, sobre uma mesma operação.
  • A CONFIANÇA. Depois do desfecho parece que você o previu, embora no momento da entrada estivesse em dúvida.
  • A SELEÇÃO. As quebras de regra são lembradas seletivamente: as que terminaram no verde viram «intuição», as que terminaram no vermelho viram «acaso».

Daí a única exigência para o diário

Tudo o que se refere à DECISÃO é escrito ANTES de o desfecho ser conhecido. Tudo o que se refere ao resultado, depois. Um diário preenchido à noite de memória documenta não as suas decisões e sim a sua reconstrução delas; um diário assim mostra uma pessoa sensata que às vezes tem azar.

O que anotar antes de entrar e o que depois de sair

Antes de entrar (obrigatório)Depois de sair
Instrumento e por que justamente elePreço e hora da saída
Condição de entrada: algo que já aconteceuMotivo da saída: stop, alvo, na mão
Preço do stop e preço do alvoResultado em R
Tamanho e a conta de onde ele saiuO que o preço fez depois da saída
Se isso estava no plano do diaUma frase: eu segui a regra?

Por que os seus hábitos aparecem rápido e a vantagem não

No curso «Testar uma ideia» está calculado que distinguir 55% de acertos de 50% exige 1046 operações. Daí se tira muitas vezes uma conclusão errada: se amostra não há mesmo, o diário é inútil. Mas o diário não procura uma vantagem e sim o SEU viés sistemático, e essa é uma tarefa bem diferente: o viés é grande e constante, a vantagem é pequena e se afoga no ruído.

Quantas operações são precisas para enxergar

O que procuramosOperações
Seu viés de saída de 1R por operação4
Seu viés de saída de 0.5R16
Seu viés de saída de 0.3R43
As perdedoras duram o dobro das lucrativas11
Vantagem de 60% contra 50% de vitórias258
Vantagem de 55% contra 50% de vitórias1046

Sessenta vezes de diferença, e ela é explicável. O seu hábito de cortar o verde em 0.8% em vez de 2% age igual em cada operação — não é acaso e sim um deslocamento. Já a vantagem precisa ser pescada de um ruído várias vezes maior que ela. Por isso as primeiras trinta anotações do diário vão te contar muito mais sobre você do que sobre o seu sistema — e isso é o mais valioso que se pode obter em trinta operações.

Exemplo com números

O que um mês de anotações mostra

Vinte e seis operações num mês. Calculamos quatro grandezas. Lucro médio +1.1R, perda média −1.4R: com alvo e stop planejados de 1R isso já é um diagnóstico — as saídas são assimétricas e a esperança foi para baixo 0.25R por operação sem um único erro nas entradas. Tempo médio numa operação lucrativa 40 minutos, numa perdedora 2 horas e 10 minutos: a mesma coisa, vista do outro lado. De vinte e seis operações, seis não estavam no plano do dia; dessas seis, cinco foram perdedoras. Nenhum desses números exige estatística: eles não falam de o sistema funcionar, e sim de você executá-lo.

Erro típico

Manter um diário de resultados em vez de um diário de decisões

A forma mais frequente de diário é uma tabela «entrada, saída, lucro». Ela é inútil justamente porque contém só o que já está no histórico de operações da bolsa. O valor do diário está nas colunas que a bolsa não tem: o que você pretendia fazer, com que justificou, se aquela entrada estava no plano. Sem elas o diário mostra o resultado e cala a causa, e o que precisa ser corrigido é a causa.

Revisão uma vez por semana, não depois de cada operação

Olhar o diário logo depois de uma operação não faz sentido: você está exatamente no estado do qual ele deveria proteger. A revisão é feita num dia calmo, sobre todas as operações da semana de uma vez, e responde a três perguntas: quantas operações foram fora do plano, onde a saída se afastou do que estava escrito de antemão, e qual regra foi quebrada mais vezes. Essa última é a candidata a ser refeita — não o caráter, e sim a regra.

Se manter o diário na mão não dá certo, comece pela negociação em papel: ali a hora, o preço e o tamanho de cada operação se registram sozinhos, e resta apenas acrescentar a causa e o plano.

Abrir a negociação em papel
Exercício

Trinta anotações e quatro números

Monte uma tabela de sete colunas seguindo o modelo acima e preencha ANTES de entrar. Depois de trinta operações calcule quatro grandezas: lucro médio, perda média, tempo médio numa operação lucrativa e numa perdedora. Não tire conclusões sobre o sistema: ainda não há com o quê. Tire uma conclusão sobre você: qual dos dois pares é assimétrico e para que lado.

Teste-se

Por que é preciso escrever o motivo da entrada antes de entrar e não à noite?

Porque, conhecido o desfecho, a memória reconstrói o motivo: para a operação lucrativa se acha uma boa causa e para a perdedora uma ruim, embora a decisão tenha sido a mesma. A anotação noturna documenta uma reconstrução, não uma decisão. A única defesa é escrever antes de o desfecho ser conhecido.

Teste-se

Para testar uma ideia são precisas centenas de operações. Para que serve então um diário de trinta anotações?

Serve porque o diário procura não a vantagem e sim o seu viés sistemático, que é bem maior. Um viés de saída de 0.5R aparece em 16 operações, a diferença do dobro no tempo de manutenção em 11, enquanto uma vantagem de 55% contra 50% exige 1046. Trinta anotações não vão dizer nada sobre o sistema e muitíssimo sobre como você o executa.